Entrevista: o que esperar do mercado imobiliário do Rio em 2026

em Gazeta de Pinheiros, 13/março

Diretor de Desenvolvimento Imobiliário da MRV analisa perspectivas do setor, efeitos das mudanças urbanísticas e oportunidades para quem pretende comprar um imóvel.

O mercado imobiliário do Rio de Janeiro inicia 2026 com perspectivas positivas, impulsionado por novos incentivos urbanísticos, maior oferta de crédito habitacional e pela demanda crescente por moradia acessível. Regiões tradicionais da cidade, especialmente na Zona Norte e no Centro Expandido, voltam ao radar das incorporadoras como áreas estratégicas para novos empreendimentos e projetos de revitalização urbana. Nesta entrevista, Alexandre Boffoni, diretor de Desenvolvimento Imobiliário da MRV no estado, analisa os principais fatores que devem movimentar o setor ao longo do ano, os impactos das políticas públicas e as oportunidades para quem pretende comprar um imóvel na cidade.

1. Quais tendências você acredita que vão dominar o mercado imobiliário no Rio neste ano?

O cenário do mercado imobiliário carioca em 2026 é extremamente promissor. Esse otimismo não é apenas uma percepção, mas o resultado da forte reação iniciada em 2025 — quando o setor já apresentou aumentos relevantes em lançamentos e vendas — somada a efeitos externos positivos que entraram em vigor agora. O amadurecimento do novo Plano Diretor, integrado à legislação municipal do Minha Casa, Minha Vida, destravou incentivos urbanísticos agressivos para quem investe na Zona Norte e no Centro. Somado a isso, o orçamento recorde do FGTS para este ano e a revisão dos tetos de renda para o plano habitacional garantem o fôlego necessário para a habitação popular, que segue como o grande motor do setor.

O foco estratégico deve se concentrar na Zona Norte e no Centro Expandido, com a consolidação de São Cristóvão no Porto Maravilha. Aproveitar a infraestrutura já instalada nessas regiões para converter áreas ociosas e antigos galpões em projetos de alta liquidez trará ao Rio um novo ciclo de renovação urbana. Nesse cenário, a habitação acessível não apenas atende a uma demanda reprimida, mas atua como a principal ferramenta de revitalização da alma da nossa cidade.

2. Entre juros, crédito e cenário macroeconômico, o que mais deve impactar o setor este ano?

O mercado imobiliário carioca tem demonstrado uma resiliência impressionante, mantendo- se aquecido mesmo em ciclos de juros elevados. Essa sustentação deve-se, em grande parte, à força do programa Minha Casa, Minha Vida, com suas taxas controladas e subsidiadas, e ao segmento de alta renda, onde a Selic tem menor impacto na decisão de compra.

A criação do Faixa 4 é um divisor de águas para este ano: ela resgata o fôlego do médio padrão, ampliando o acesso ao crédito para uma parcela da população que estava desassistida. Somado a isso, trabalhamos com uma expectativa real de diminuição gradual da Selic ao longo de 2026. Essa sinalização de queda não apenas reduz o custo do financiamento futuro, mas atua como um gatilho de confiança, animando o mercado e antecipando decisões de investimento em regiões estratégicas como a Zona Norte e o Centro.

3. A demanda por moradia popular segue aquecida? O que a MRV projeta para 2026 nesse segmento?

A demanda por moradia popular no Rio de Janeiro não apenas segue aquecida, como atravessa um de seus momentos mais dinâmicos, impulsionada pelas atualizações no MCMV e na legislação municipal. Para a MRV, a projeção para 2026 é de crescimento focado em eficiência operacional e na ocupação de nichos estratégicos. Embora nossa atuação tenha uma característica de pulverização geográfica, teremos um foco contundente na Zona Norte, em total alinhamento com a nova política urbana da cidade.

Nossa estratégia foca em projetos em terrenos que ofereçam conectividade urbana real. O objetivo central continuará sendo oferecer um produto de qualidade diferenciada para todas as faixas de renda, transitando desde o Faixa 2 até o novo Faixa 4 do programa. A expectativa é que, em 2026, o Rio de Janeiro consolide sua posição como uma das praças de maior rentabilidade e relevância para o segmento econômico no país.

4. O que os compradores deveriam observar ao buscar um imóvel?

Ao buscar um imóvel, especialmente em um ciclo de crescimento como o que vivemos em 2026, o comprador deve colocar a segurança e a solidez da incorporadora no topo de suas prioridades. Mais do que olhar para a planta, é fundamental investigar quem está por trás da obra. Comprar um imóvel é o maior investimento da vida de muitas famílias, e o risco de atrasos ou problemas estruturais deve ser mitigado pela escolha de empresas consolidadas.

A recomendação é que o cliente se atente à escolha da construtora e, principalmente, à presença da marca em ciclos econômicos anteriores. Observar a infraestrutura das áreas comuns em projetos já finalizados e conferir se o que foi entregue reflete exatamente o que foi prometido no estande é o melhor termômetro de qualidade. No mercado atual, confiança não se improvisa; ela é construída com histórico e entrega comprovada.

5. O perfil do comprador carioca mudou nos últimos anos? O que vocês estão observando?

O carioca está redescobrindo o Rio. O aumento na capacidade de crédito e os novos rumos traçados pela política urbanística desbloqueiam o eterno sonho de estar próximo do trabalho e das facilidades urbanas. O que vemos hoje é um comprador que prioriza a conveniência e a conectividade; ele quer a agilidade do mundo digital no processo de compra, mas, no dia a dia, quer a praticidade de ter a cidade ao seu alcance.

6. Quais regiões do Rio a MRV vê com maior potencial de crescimento em 2026? E por quê?

Em 2026, nosso maior foco será na Zona Norte e no Centro Expandido, mas, como é nossa característica, estaremos bem distribuídos geograficamente dentro dessas regiões. Dessa forma, conseguimos atender a diversos perfis de clientes em bairros como Pilares, Irajá, Cachambi e Bento Ribeiro, entre outros.

Nossa estratégia é ocupar bairros tradicionais onde a infraestrutura já existe e o novo Plano Diretor oferece incentivos, garantindo que o comprador encontre um produto de qualidade exatamente onde ele precisa estar. Investiremos em frentes que vão desde o polo de revitalização em São Cristóvão até os eixos da Av. Brasil, como em Guadalupe.

7. Como a MRV está se preparando para atender às necessidades desse mercado?

A MRV se prepara para 2026 focando em três pilares fundamentais: eficiência construtiva, digitalização e confiabilidade. Nossa escala e industrialização nos permitem manter custos otimizados, garantindo preços acessíveis mesmo com o alto padrão de entrega que o mercado exige hoje. Além disso, consolidamos um processo de vendas 100% digitalizado, que remove burocracias e respeita o tempo do cliente.

8. Quais desafios você aponta para o mercado imobiliário no Rio?

O cenário para o mercado é de otimismo, mas sempre existirão desafios. O custo de construção, apesar de mais controlado do que no passado recente, ainda exige atenção constante. Com o aumento no volume de novos lançamentos em 2026, podemos enfrentar gargalos na oferta de materiais e na disponibilidade de mão de obra qualificada. Nesse contexto, empresas mais sólidas, com maior poder de escala e capacidade de negociação, tendem a se privilegiar.

Além disso, esse aquecimento do setor pode congestionar o sistema de aprovação junto aos órgãos públicos. Por isso, a experiência em gestão de projetos e o diálogo institucional são fundamentais. O desafio é transformar esse grande volume de demanda em entregas reais, mantendo a eficiência que o segmento econômico exige.

9. Sustentabilidade deixou de ser diferencial e virou premissa. Como isso aparece, na prática, nos projetos da MRV no estado?

Para a MRV, a sustentabilidade deixou de ser um acessório para virar premissa. Não acreditamos em pequenas inserções no produto final que funcionam apenas como ilustração; trabalhamos o conceito no cerne do processo construtivo.

Na prática, isso significa que a sustentabilidade está presente desde a escolha de materiais que garantem melhor conforto térmico e acústico, fundamentais para a qualidade de vida no Rio, até as soluções de abastecimento e gestão de resíduos no canteiro de obras. Quando escolhemos um material mais eficiente ou uma técnica que reduz o desperdício, estamos sendo sustentáveis na origem. O resultado é um imóvel com maior durabilidade e um custo de manutenção menor para o cliente.

10. O que a MRV leva em consideração na hora de escolher o bairro e alocalização de seus lançamentos?

O nosso critério mais importante é a empatia: nós pensamos exatamente como o cliente final. Antes de adquirir um terreno, projetamos como será a experiência de viver naquele local e nos fazemos perguntas fundamentais: haverá qualidade de vida real? O transporte é eficiente? Onde os filhos irão estudar? Onde será o lazer?

O nosso foco é o tempo e a conveniência do morador. E quando analisamos um bairro e identificamos que falta algo essencial, nós mesmos criamos essa infraestrutura. Na Zona Oeste, por exemplo, onde havia carência de alguns serviços, desenvolvemos uma verdadeira cidade, com Rua do Comércio, escolas, áreas verdes, parques e ciclovias. Não entregamos apenas um prédio; entregamos um ecossistema pronto para a vida do cliente, garantindo que o desenvolvimento chegue onde ele mais precisa.

11. Sendo a maior construtora da América Latina, qual é o principal diferencial competitivo da MRV no mercado carioca?

O nosso principal diferencial é a capacidade de entrega aliada à escala. Ser a maior da América Latina nos permite algo que poucas empresas conseguem no Rio: manter o equilíbrio entre preço acessível e alta qualidade construtiva, mesmo diante das oscilações de custos do setor.

No final do dia, o diferencial competitivo da MRV é a tranquilidade do cliente: ele sabe que está comprando de uma empresa sólida, que utiliza tecnologia industrial para garantir prazos e que tem fôlego financeiro para investir não só no prédio, mas na melhoria de todo o entorno onde ele vai morar.

12. Como a construtora vê a relação entre setor público e privado no desenvolvimento imobiliário carioca?

Vemos essa relação como uma parceria estratégica e indissociável. O setor público tem o papel fundamental de planejar a cidade e criar o arcabouço legal — como vimos com os importantes avanços do novo Plano Diretor e da nova Lei Municipal do Minha Casa, Minha Vida, que incentivam o adensamento onde já existe infraestrutura. Mas é o setor privado que tem a agilidade e o capital para transformar esse planejamento em realidade.

Apesar dos avanços, ainda existem oportunidades fundamentais para que o Rio atinja seu potencial máximo. É preciso garantir a manutenção da fluidez no processo aprobatório, considerando o aumento do volume de projetos, e avançar na melhoria dos serviços e nas exigências das concessionárias, que muitas vezes são o maior entrave para o cronograma das obras. O sucesso do Rio em 2026 depende dessa sintonia fina: o poder público garante a agilidade normativa e operacional, e a iniciativa privada entrega o investimento e a transformação urbana.

13. Quais conselhos você daria para quem pensa em comprar um imóvel este ano no Rio?

O meu principal conselho é que o comprador aproveite este momento de maturidade do mercado carioca. Mais do que olhar apenas para o bairro, o foco deve ser escolher projetos que entreguem a infraestrutura necessária para o dia a dia. É fundamental buscar empreendimentos pensados dentro do seu contexto, que tragam soluções de conveniência, lazer e mobilidade integradas ao condomínio ou ao seu entorno imediato.

Além disso, é essencial buscar a solidez da marca. Em um cenário de grandes transformações urbanas, ter a segurança de uma construtora com escala e histórico de entrega é o que garante que o projeto de vida da família se concretize com tranquilidade.

14. Onde está a grande oportunidade do mercado imobiliário do Rio em 2026?

A grande oportunidade do Rio em 2026 está na retomada de regiões consolidadas através de novos incentivos. A combinação do novo Plano Diretor com a Faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida criou uma janela de oportunidade única: hoje conseguimos entregar projetos modernos, com infraestrutura completa e lazer, em bairros onde antes o custo de construção inviabilizava o acesso para a classe média.

Então, a oportunidade não está em um único ponto isolado, mas na capacidade de levar moradia de qualidade para onde as pessoas já vivem e trabalham. O Rio parou de olhar apenas para a expansão de fronteiras e passou a olhar para o seu próprio coração, e é ali, na revitalização e no adensamento inteligente, que o mercado está encontrando seu melhor momento.

15. Em uma frase: como você define o momento do mercado imobiliário carioca e o que esperar deste ano?

Apesar do cenário de juros, as recentes atualizações legislativas criaram um momento de grandes oportunidades para as empresas e, principalmente, para quem quer conquistar a casa própria, consolidando uma expectativa real de crescimento e a revitalização histórica do Centro e da Zona Norte do Rio.


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