Não vendeu? Parcela! Correios oferecem em até 12 vezes histórico prédio do Correio Geral no Centro do Rio

em Diário do Rio / Mercado Imobiliário, 22/setembro

Após fracasso do primeiro leilão, imóvel de quase 10 mil m² volta à praça em 24 de setembro; especialista que já considerava o preço compatível com o mercado não acredita que parcelamento seja suficiente para destravar a venda.

Não vendeu? Parcela. Depois de não encontrar comprador para um dos edifícios públicos mais simbólicos do Rio de Janeiro, os Correios resolveram facilitar a vida de quem estiver disposto a levar quase 10 mil metros quadrados de história brasileira. O antigo Correio Geral, na Rua Primeiro de Março, 64, volta a leilão em 24 de setembro, às 15h, e agora aparece anunciado com uma novidade que parece saída de vitrine de loja de departamento: pagamento em até 12 vezes.

Não se trata, naturalmente, de 12 vezes sem juros. Pelas novas condições, o comprador deverá pagar pelo menos 20% de entrada e poderá parcelar o saldo em até 12 prestações, com os encargos estabelecidos no edital. O imóvel volta à praça inicialmente por R$ 53,6 milhões, podendo chegar, nas ofertas seguintes, ao lance mínimo de aproximadamente R$ 47,8 milhões.

É a segunda tentativa de venda do edifício cuja alienação foi revelada em primeira mão pelo DIÁRIO DO RIO em julho e depois repercutida pela imprensa nacional. O primeiro leilão, realizado em 30 de julho, terminou sem comprador. Agora os Correios mantêm praticamente os mesmos valores e mexem principalmente nas condições de pagamento.

E é justamente aí que aparece o problema. Quando o Diário revelou o primeiro leilão, Lucy Dobbin, superintendente de vendas da Sérgio Castro Imóveis, avaliou que o preço estava fora da realidade. Segundo ela, sobrados históricos desse perfil na região da Praça XV giravam em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil por metro quadrado, e o antigo Correio Geral ainda reúne atributos raríssimos: ocupa um quarteirão inteiro, possui janelas para os quatro lados e está numa área do Centro que voltou a despertar interesse de investidores.

Consultada novamente pela reportagem diante das novas condições, Dobbin manteve uma avaliação pouco otimista sobre o desfecho: não acredita que o parcelamento, por si só, seja suficiente para fazer o imóvel encontrar comprador. “O prédio não é um sobrado comum; é um prédio enorme que precisa de reforma e modernização, o que pode ser complicado face ao tombamento. Não deve valer mais que 30 milhões por causa disso”, explica.

O problema, portanto, talvez esteja menos no preço pedido pelos Correios do que na conta que começa depois da batida do martelo. Quem arrematar o edifício não comprará simplesmente 9.059,81 m² no coração do Centro. Comprará um imóvel monumental do século XIX, tombado pelo patrimônio federal, cuja adaptação a novos usos terá de obedecer às exigências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Essa proteção é fundamental para impedir a descaracterização de um patrimônio dessa importância, mas também reduz a liberdade normalmente disponível ao incorporador para alterar plantas, circulações, fachadas, esquadrias e outros elementos em busca do melhor retorno econômico. Some-se a isso o custo de restaurar e modernizar quase 10 mil metros quadrados de uma construção histórica e começa a ficar mais fácil entender por que nem um endereço extraordinário e um preço considerado razoável garantiram comprador na primeira tentativa.

O rombo continua

O humor do parcelamento contrasta com uma situação financeira nada engraçada. Os Correios registraram lucros em 2019, 2020 e 2021, período em que Paulo Guedes comandava o Ministério da Economia, voltaram ao vermelho em 2022 e viram a deterioração acelerar nos anos seguintes. O prejuízo alcançou aproximadamente R$ 2,6 bilhões em 2024 e disparou para cerca de R$ 8,5 bilhões em 2025. Somente no primeiro semestre de 2026, as perdas chegaram a aproximadamente R$ 5,55 bilhões.

Foi nesse cenário que entrou na lista de alienações um edifício que está longe de ser uma agência qualquer. Construído em 1878, ainda no Segundo Reinado de Dom Pedro II, o antigo Correio Geral foi durante décadas a sede nacional dos serviços postais brasileiros. Ocupa sozinho um quarteirão entre a Primeiro de Março e ruas vizinhas, em plena região da Praça XV e da Candelária.

Durante mais de um século, cariocas simplesmente o conheceram como Correio Geral; posteriormente, tornou-se a Agência Central dos Correios. Pela monumentalidade e pela função que desempenhou na história brasileira, o Diário passou a chamá-lo de Palácio do Correio Geral.

Agora, depois de atravessar Império, República, telegrama, telefone, fax, e-mail e WhatsApp, o velho Correio Geral encara uma novidade bem século XXI: a segunda chamada do leilão e a possibilidade de sair em até 12 prestações.


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